Santa Rita

Santa Rita

Não sei dizer como se chegava até lá. Naqueles tempos não era tão longe da pequena cidade, mas talvez possa estar enganado pois minha percepção de tempo e distância eram diferentes. Quando se é jovem as horas em geral são mais longas, pelo menos eram para os jovens de minha época. Talvez hoje em dia isto seja distinto pois os meninos fazem tantas coisas ao mesmo tempo, não sei como conseguem, talvez as horas para eles sejam rápidas, mas essa percepção eles só terão quando forem mais velhos, como eu, e puderem olhar para trás e analisarem as diferenças, compararem os tempos, como aqui faço eu. Sei que para mim hoje em dia tudo parece tão rápido, vêm e desapareçem, mas antes os minutos escorriam lentamente na peneira do tempo. Já a distância sempre foi, penso eu, algo relativo, mas de alguma forma também atada ao tempo, quero dizer que quando se está ocupado e entretido a distância parece curta mas quando a coisa está enfadonha parece que nunca se chega.

Na Santa Rita não se demorava muito a chegar então. A estrada era de terra. O carro fazia uma nuvem de poeira quando eu olhava para trás. Dava para ver o canavial de longe que ficava bem alto em tempo de colheita. Depois de uma curva o portão de entrada, de madeira já velha, bem simples, sem nome, sem nada, onde tinha a grade no chão para as vacas não passarem.  O cheiro de melaço de cana no ar, ou deviam estar fazendo rapadura, ou alfenim, aquela liga mais fina, algo entre o melaço e a batida, mais suave, que derretia na boca. Mal a Rural parava eu disparava em direção à pequena moenda. Seu Antônio lá cuidando do fogo, Zézinho, seu filho menor, moendo mais cana e Dona Mazé mechendo no tacho:

– Menino, não põe o dedo que tá quente!

Mas eu já tinha levado um punhado de alfenim e chupando aquela doçura voltava correndo para casa.

Era antiga, toda branca, de telha, sem forro no teto. Por fora uma varanda que a arrodiava quase toda, dentro uma sala grande na frente com um sofá meio empoeirado acercado de umas cadeiras de balanço, uma cristaleira no lado com bebidas e taças, e uma cômoda com muitas gavetas contra a parede. Depois vinha a copa, com uma mesa bem grande e rústica de madeira maçica e cadeiras pesadas. Sempre tinha uma gamela farta no centro da mesa com algumas frutas que iam caindo dos pés ou sendo tiradas já maduras: mangas, cajús, laranjas, goiabas e laranja-limas. Havia uma passagem que levava para o corredor onde ficavam o banheiro e os quartos. No fundo da copa, descendo uns dois degraus, ficava a cozinha. As bocas de fogo e o forno de lenha, tudo se esquentava à base de carvão. Tinha tambem um espaço no chão, um buraco  raso, onde se fazia um fogo mais alto e se pendurava o calderão em cima.

– Não chega perto que tu te queima, seu buliçoso!

De piso de barro batido, a cozinha era aberta, sem paredes nos lados ou nos fundos, assim a fumaça saía e não entrava na casa, na verdade tinha parede sim, mas era bem baixa com menos de um metro de altura que servia de banco para as pessoas sentarem se quisessem. Depois da cozinha, nos fundos da casa, era tudo de terra. O varal esticado com as roupas e toalhas coarando ao vento. Muitas galinhas, seus pintos, uns dois galos, patos, e outros animais, andando e ciscando dentro de um grande cercado.

– Deixa os capotes em paz! Eita, menino danado!

A casa dos moradores ficava no final, de taipa e barro, coberta de palha de carnaúba, perto de umas mangueiras frondosas que muita sombra faziam, onde tinham alguns tamboretes, que seu Antônio sentava para descascar as laranjas e onde o cachorro velho vivia dormindo.

Chegávamos no meio da tarde,  ainda dava tempo de descer até o rio. O Surubím não ficava muito longe, esse eu sei, pois dava para ir a pé. Se fazia calor eu sempre ia junto. Chegava lá e mergulhava com tudo nas sua águas escuras e limpas. Se tinha Surubím de verdade alí nunca os vi. Quase não íamos para pescar mas para tomar banho e buscar água fresca. Dona Mazé mandava as duas filhas e um afilhado comigo e eles carregavam uma lata grande na cabeça cada um. Era subida na volta, e tinha pedras, elas balançavam mas nunca caíam, nem nada derramava. As latas enchiam os potes que ficavam na cozinha. Eram três, de barro, grandes, que faziam um sistema de decantação e filtração. A água ficava sentada lá no primeiro deles e ia decantando, depois de um tempo se mudava para o outro pote, e o processo se repetia até o terceiro, desse último a gente bebia, enfiava-se umas colheres de cuia bem grandes e enchiam-se os copos para a mesa do jantar, que já estava quase pronta.

– Não pega na comida! vá lavar as mãos primeiro!

Seu Antônio matava uma galinha ou um pato,  faziam ao molho pardo.  Comíamos tudo, pouca coisa sobrava. Arroz, feijão, farofa, alguns legumes da pequena horta ao lado da casa, e rapadura ralada acompanhavam aquele prato ensopado que com quanto mais molho melhor de se comer. Daí passávamos para a melhor parte: as noites na varanda. O piso era de laje, as lamparinas iam se acendendo, o cheiro de querosene no ar misturava-se com os dos licôres dos adultos, com o de Jenipapo especialmente. Se apurassem-mos os ouvidos talvez desse para escutar as últimas badaladas do sino da capelinha distante da vila mais próxima. As vacas de longe procuravam o seu lugar e os grilos começavam a cantoria, onde as vezes um sapo ou uma coruja tambem participavam.  Armavam-se as redes, puxavam-se as cadeiras, pendurávam-se os lampiões, enquanto a noite lá fora caía escura. As conversas, as lorotas, aquele tempo todo para se gastar, a preocupação inexistente, as risadas bem altas, os vagalumes piscando no escuro, a lua pequena nos espiando por uma fresta no meio das telhas como se estivesse esticando as orelhas para ouvir nossas estórias, o sono que vinha chegando, os lampejos da lamparina e sua luz âmbar e eu pedindo para as estrelas que dessas noites e daqueles tempos eu nunca deixasse de lembrar.

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