Calangos e Abelhas

Calangos e Abelhas

– Jura que é minha?
– É sua, já falei – disse meu irmão mais velho.
– Mas e a mamãe? Ela já sabe? – indaguei.
– Deixe ela comigo e vá praticar – ele me assegurou com um piscar de olhos.

Assim peguei a espingarda e fui para o quintal. Era uma daquelas de ar comprimido, ou de chumbinhos, como também se dizia, e junto com ela meu irmão também tinha me dado uma caixa grande de munição, cheia dos tais chumbinhos.

Nosso quintal era um paraíso de lagartos que na nossa terra chamávamos de calangos. Meu irmão, que me dera a espingarda, era um exímio caçador, dono de uma pontaria extraordinária e de um coração de quem caça, ou seja, não tinha dó das presas. Matava pacas, porcos selvagens, pombas, rolinhas, marrecos, às vezes até urubús, estes, claro, não nos trazia para comê-los, mas matava-os para praticar a mira.  Tinha me ensinado o básico daquela arma e me dado umas dicas de como me tornar um bom caçador, mas eu não tinha coragem, nem coração, nem pontaria, para caçar passarinhos. Os calangos entretanto me pareciam bem mais fáceis, mais feios, e haviam dezenas, talvez centenas deles pelo quintal.

Assim naquelas férias escolares virei o terror dos calangos. Com o tempo, me aperfeiçoei e matava-os até à distância.  Eles, em cima dos muros, às vezes voavam longe quando atingidos pelos meus tiros que ficavam cada vez mais certeiros. Passava as tardes praticando em um alvo de madeira ou acertando nos calangos que passavam. Calangos de minha terra eram todos parecidos, tinham aquela cor cinza, ou bem perto disso, quiçá um verde bem musgo, um marrom escuro, ou um quase preto, todos na mesma tonalidade. As vezes alguns tinham umas manchas pelo corpo que o deixavam um pouco mais distintos, mas em sua grande maioria eram quase uniforme. Com exceção de um que vi algumas vezes, esse tinha uma mancha amarela, bem nítida, que se espalhava pelas costas, subindo até o pescoço. Esse era diferente, e esperto, se é que se pode dizer assim de um calango, mas rápido ele era com certeza, pois por duas vezes esteve na minha mira e conseguiu escapar, em uma delas meu tiro acertou seu rabo que ví voando longe para o outro lado do muro.

Eu tinha acabado de completar dez anos de idade e enquanto atirava me imaginava um caçador daqueles da África, ou em densas florestas tropicais, e os calangos eram então animais enormes, ou às vezes monstros, até em dinossauros as pobres criaturas se transformavam na minha imaginação infantil. Foram muitos, foram tantos, que já perto do fim das férias faltavam calangos para mim atirar. Estavam escasseando no quintal de minha casa.
– Pule o muro do quintal, – disse meu irmão. – daquele terreno deve ser de onde vêm todos os calangos.

Nisso talvez ele tivesse razão. O terreno era imenso, murado, mas muito grande, praticamente abandonado, pertencia ao bispado da cidade. Para a minha visão, do alto dos meus dez anos, aquele terreno cheio de árvores enormes, arbustos e muito mato no chão era realmente como uma floresta, e os calangos deviam vir todos de lá, subiam no muro alto e entravam no terreno de nossa casa. Naquela floresta eu poderia ser um caçador de verdade, minha fértil mente já começava a voar em cenários imaginários.

No dia seguinte decidi pular o muro. Foi uma tarefa muito mais difícil do que eu imaginara. O muro era bem alto, duas vezes o meu tamanho ou mais. Não tinham árvores do lado de nosso quintal para eu subir e facilitar meu trabalho. Tive que ir escalando mesmo a parede, enfiando o pé em algum espaço entre os tijolos, as mãos entre algumas brechas que ia achando, escorregava e voltava a subir, e quando já estava quase no alto, me preparando para ficar em cima do muro ví que em cima dele estava o calango com as manchas amarelas. Ele balançava a cabeça como as balançam os calangos, seu rabo, para minha surpresa, já tinha crescido novamente, estava até mais longo e ele me olhava intensamente, acho eu, quero dizer,  tinha algo naquele seu olhar de calango, talvez me provocando a subir o muro, a tentar caçá-lo, ou a cruzar para o terreno alheio. Talvez fosse a minha imaginação fértil dos meus poucos anos mas levei a sério aquele olhar e a primeira coisa que fiz quando fiquei em cima do muro foi tirar a espingarda das costas e mirar naquele calango arrogante, mas ele não estava mais lá.

Descer é mais fácil. Encontrei dois tijolos mais salientes e de um semi pulo estava do outro lado. O mato era muito, e alto, em algumas partes da altura do meu joelho. Que Bispo era aquele que deixava sua propriedade tão mal cuidada, pensei. Tinha muitas árvores todas frondosas, a maioria eram mangueiras mas também oitis, abacateiros e cajueiros.  Os calangos rastejavam por toda a parte e eu tentava acerta-los porém não conseguia. O problema, que eu não esperava, era que o mato e a grama eram muito altos e mal cuidados e ofereciam perfeitos esconderijos para os répteis. Não tinha acertado nenhum. Aquele mato alto, de onde eu ouvia uns ruídos estranhos, me fez pensar em outra coisa também: ” e se aqui tiver cobra?”. De repente aquela idéia de estar naquele terreno alheio, grande, desconhecido e mal cuidado não me pareceu tão boa assim. Decidi tentar minha sorte nos calangos dos troncos das árvores, afinal não teria sofrido para escalar aquele muro por nada, algum eu tinha que acertar. Nas mangueiras também haviam calangos, um pouco mais difíceis de achar pois devido a sua cor eles se misturavam bem com os troncos das árvores. Com algum esforço achei um, estava bem exposto, presa fácil, pensei, e preparei a mira. No momento que ia puxar o gatilho, ouvi algo rastejando, o mato mecheu perto do meu pé, pensei: ” é uma cobra e vai me picar!” e o tiro saiu completamente torto errando o alvo totalmente.

Errou é uma maneira de falar, pois, como dizia, o tiro não alvejou o que eu queria, porém acertou outro alvo em cheio: uma colméia de abelhas que estava no outro tronco e eu não tinha sequer visto. Foi um grande alvoroço naquela colméia mas eu não notava, estava preocupado com o que poderia estar rastejando perto de meus pés. A movimentação na colméia foi tanta que ela veio ao chão bem perto de mim. Pronto. Foi o bastante para elas me acharem e descobrirem que eu era a causa de tudo aquilo. Voaram em cima de mim, eu saí em disparada de volta para o muro sentindo as picadas; uma, duas, três. Olhei aquele muro enorme que agora me parecia ainda mais alto e pensei: “elas vão me comer vivo”.

Nunca subestime a força do medo. Fazemos coisas com medo que jamais faríamos em circunstâncias normais. O medo é uma entidade fantástica que está além do entendimento do homem comum. Ele é um grande estimulador ou inibidor de ações. No meu caso, com muitas graças, ele foi um estimulador, pois até hoje, se me pedires para contar, não sei dizer como subí aquele muro tão alto, que demorei tanto a subir na ida, de uma maneira tão rápida agora na volta. Só sei que assim o fiz, e em segundos, sem levar mais nenhuma picada, estava em cima do muro. E quando já me preparava para pular lá do alto, para a segurança do quintal de minha casa, não pude deixar de notar novamente a presença do tal calango de manchas amarelas. Lá estava ele me olhando e balançando a cabeça, como eles gostam de balançar, mas dessa vez o olhar era um outro, quase risonho, se é que calangos sorriem, me pareceu um olhar de satisfação sem dúvida, de quem tinha me dado uma lição.

Sem contar do incidente, nem das abelhas, muito menos do calango insolente, falei para minha mãe que caçador era meu irmão, e que eu gostava mesmo era de jogar bola.

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