Queda de Moto

Verde. O sinal abre, a moto parte. Olha o relógio: 2h34min45s da tarde, ele vai na garupa.

Primeira, segunda, de repente o freio, o cantar do pneu. Ele olha para frente e o que vê é azul. Tudo azul. Um carro azul furou o sinal e está bem na frente no meio do cruzamento. A batida é inevitável. O céu azul, ou será o carro novamente? Não, é o céu. Ele vê nuvens no canto dos olhos. Como o céu? Estou à caminho do céu?, ele se indaga. Cheiro de borracha queimada, fresca, outros pneus cantam desafinados uns com os outros, fora de tempo, gritam, na verdade. Uma caveira o olha, pálida, olhos fundos, tem asas ao lado das orelhas. Deve estar voando com ele, eles voam juntos, mas peraí! Se caveiras me acompanham não devo estar indo para o céu, ele reflete, pragmático. Olha novamente, para aquela companhia suspeita, mas agora o que vê é somente uma jaqueta jeans desbotada, a caveira, já pequena, no fim da visão, tinha uma frase embaixo que só agora, sob esse novo ângulo, ele consegue ler: “Vivo pra rodar, Rodo pra viver”.  “Vivo pra rodar”?, a cabeça dele de fato roda, rodam-lhe os pensamentos, roda o seu eixo de referência, roda o mundo ao seu redor. Não. O mundo está fixo, o seu corpo é que roda, gira ao redor do mundo. “Rodo pra viver”… Será? Putz, está sem capacete, ele se lembra. Que merda! Por que aceitou essa carona. Greve de táxi, mas ele podia ter ido de ônibus. Lotado, naquele puta calor, em pé, pendurado na barra como um condenado, com nêgo de camisa cavada, sovaco cabeludo pingando e braço levantado, outro com um bafo de leão ressacado cafungando encostado no seu pescoço, aquele cara mal encarado sentado no banco te olhando de baixo para cima, 50 minutos no mínimo, se não tiver congestionamento no túnel, à cada parada enchendo mais e ele com aquele compromisso importante às 3 da tarde. A moto do amigo era uma melhor alternativa, mas sem capacete?

Ele vê o asfalto. Faz um calor brutal, 40 graus ou mais. O asfalto parece estar derretendo, um líquido viscoso, lama negra, gosmenta, piche se desmanchando no calor descomunal. Seu olhar parece desmanchar-se junto com aquele melaço negro. Ele aproxima a visão, como se seu olhar tivesse uma teleobjetiva, ajusta as lentes, para cá e para lá até dar o foco. Talvez tivesse usado uma lente macro, já que o foco parece próximo demais e de repente tudo é negro, não há nada ao redor, o mundo escureceu. Será uma nuvem? A sombra de algum edifício? Entramos no túnel? Não faz sentido, ele pensa. Acha que vai desmaiar, que vai dar um branco, mas está tudo preto. Então ele pisca e vê uma roda cromada, com aros diagonais. Muitos aros brilhantes, todos conectados ao círculo exterior da roda. A luz reflete nos aros, e o reflexo chega à seus olhos como espadas prateadas, lumes de raio laser. A roda girando, uma roda gigante, e ele dentro da roda, em uma das cadeiras. Está só, ele é uma criança. A roda gira, e ele gira com a roda em volta do sol. A luz do sol direto nos olhos, lhe cega a visão e ele pensa em tirar seus óculos escuros do bolso da camisa mas lembra-se que os deixara na casa dela. Em cima da mesinha ao lado da cama. Porquê ele se esquecia das coisas quando estava com ela? Por isso tinha se atrasado. Ela sempre teve esse dom de deixá-lo meio fora de si, à parte do mundo, avoado, flutuando, em cima das nuvens. Ela fechava e abria os olhos bem devagar, os lábios carnudos ainda úmidos do último beijo, concentrando os músculos da pélvis, os movimentos as vezes rápidos, as vezes não, as mãos tensas, as unhas quase machucando, a pele sendo cravada, a fixação do olhar, o aumento de tensão, a expectativa, de repente, como em um último suspiro, tudo se relaxava, uma onda morna inundava os dois, soltavam-se as amarras, os músculos agora estavam leves, o barco parecia solto, à deriva, e ela tinha uma expressão suave, um quase sorriso se desenhando no canto da boca, um contentamento sutil, mas pleno. E vem aquela sensação de se estar flutuando novamente e vem outra onda batendo mais forte, e lhe trazendo à tona, arrastando o barco para a beira da praia. Tinha areia bem firme, mas a água brotava embaixo da areia quando escavada. Colocou-se a fazer castelos de areia na beira do mar. Fazia castelos góticos, com pingos de areia e água, gotas que iam se acumulando, de uma em uma, dando o formato que ele procurava. Gostava de fazer várias torres, ao redor da torre central, mais alta e imponente, onde moraria um rei justo e soberano. Ao redor do castelo um lago, circular, com uma ponte de acesso ao castelo e suas torres. Castelos de areia, castelos de carta, esculturas de gelo, todas criações temporárias com fim eminente, nascem com os momentos contados, como tudo na vida, ele refletiu. Como a própria vida em si, afinal a única certeza garantida que temos é que um dia ela acabará, basta uma maré enchente, um sopro mais forte, um clima mais quente, um carro azul, ou seria cyan?, gostava desse nome de cor, mas  era definitivamente azul, e viu aquele carro mais uma vez, de relance, como se estivesse passando em uma imagem de um filme de super 8 que tinha parado, e o projetista agora tentava rebobina-lo, colocá-lo de volta nos trilhos, e enquanto o fazia, saiam aquelas imagens distorcidas, misturadas com algumas listras escuras horizontais, mas a maioria eram verticais, passando rapidamente, como aquelas palmeiras nos filmes da Califórnia que passam alinhadas do ponto de vista do motorista em um carro conversível.

Ele via essas árvores passando, eram coqueiros provavelmente, ou talvez carnaúbas, mas palmeiras, sem dúvidas, e também carros e ônibus, e pessoas na calçada com as bocas abertas e olhares fixos. Alguns levantavam as mãos, outros queriam cobrir o que viam, mas o que viam era ele. Olhavam para ele. O que ele tinha de tão feio, ruim ou repugnante até, que não queriam olha-lo?. Tinham medo? Nunca tinha se considerado bonito, mas feio não era, tinha certeza disso, e ela lhe dizia sempre o contrario, agora à pouco mesmo, lhe acariciando os cabelos atrás da cabeça, passando as duas mãos pela sua nuca e se despedindo em um beijo, na ponta dos pés, ardente, como se fosse o último, como tinha sido o primeiro, naquele jantar elegante em que ele se sentia deslocado, de calças jeans no meio de ternos e gravatas, com a ponta de sua tatuagem exposta sob a camisa enrolada na altura dos cotovelos, e aqueles olhares de plástico que o encaravam, sorrisos forçados que se disfaziam quando mal passavam por ele, ainda dava tempo de ele  ver pelo canto dos olhos os lábios fechando-se e as bocas voltando à posição sèria, soturna até. O que fazia ele alí ? Nem precisava ter ido. Não gostava dessas socializações, não era de muita conversa mas aceitou o convite porque tinha o hábito de observar as pessoas, para as suas histórias. Sentava-se em parques e cafés públicos vendo-as passar e gostava de imaginar o que elas faziam, como viviam, quem amavam, porque sorriam, porque estavam sempre correndo, com quem falavam tanto no telefone. Criava situações em sua cabeça, dava nome à aqueles seres desconhecidos, que sem querer, com o tempo, iam se tornando conhecidos para ele, seus personagens, em novos contos, romances, crônicas. Rostos que ficavam familiares, personalidades e comportamentos que ele agora julgava conhecer. No entanto um olhar o castigava, não precisava ver para senti-lo, atravessava-lhe a carne, pontudo como uma lança. Encostada em um parapeito contra a janela, a brisa noturna soprava o cabelo dela, que resvoava displicentemente ao redor do rosto e ombros. A pele bronzeada, um moreno bem claro, realçava com o vestido lilás, ou seria fucsia?. Fúcsia, meu deus, como ele adorava os nomes dessas cores. A boca bem delineada, com curvas perfeitas, acabando no momento certo, deixava o sorriso, de dentes branquíssimos, ainda mais sinceros, o único sincero de todo aquele jantar. Aquele olhar lhe chamava e ele o seguiu. Conversações iniciais, petiscos de flerte, aperitivos-testes de empatia, tira-gostos em busca de sintonia. Que tal essa festa? Qual o seu departamento? Jornalismo? Escritor ? Escritores são seres misteriosos. É um dragão? Um cavalo? ..Não parece…Ahh um cavalo de fogo? Gostou do estilo, ela disse. Das linhas, do traço do artista. É do horoscopo chinês, explicou ele. De quarenta em quarenta anos as pessoas que nascem no ano do cavalo, viram cavalo de fogo. Então são pessoas especiais, seres ardentes, ela quiz saber. A frequência foi encontrada, a recepção era então nítida, a sintonia foi perfeita, e o beijo veio naturalmente, como já estivessem se beijado antes, mas intenso. Veio com calor, como são os primeiros beijos, e os primeiros toques, o sentir da outra pele, da carne morna encostada na sua. Veio com fogo, o corpo dele todo esquentava mas na perna direita era intenso demais. A parte interna estava como em brasa. Tocara o cano de escape da motocicleta, mas não deu tempo de gritar, uma dor profunda veio na sua coxa direita e na lateral de sua bunda. Tinha caído? Havia se arranhado, podia sentia uns puxões. Vinham-lhe umas sensações estranhas. Parecia que eram os abraços de sua mãe, uma roda gigante rodando, eram as bolas divididas na escola, as aulas de judô, castelos de areia desmoronando, as disputas de basquetebol, eram os pulos de alegria com o resultado do vestibular, a apreensão das primeiras escritas, o frio na barriga esperando as críticas, eram muitas imagens de tantos filmes assistidos passando como as arvores da California, todas as palavras dos livros lidos, tantas viagens feitas, os rostos das pessoas que conhecia, dos parentes e amigos, e daqueles que não conhecia, aqueles dos parques e dos cafés, de seus animais de infância, de seu cavalo de fogo com suas labaredas de cores fantásticas: púrpuras, lilás, magenta, cyan e do vestido fúcsia dela, aquele do primeiro beijo, e daquele sorriso de satisfação, da sensação flutuante, dos óculos escuros deixados na mesa do lado, da greve de táxis, do ônibus lotado, da carona de moto, do sinal verde e do carro azul.

Olhou o relógio que estava intacto: 2h34min47s

Era verdade: A vida realmente passa na sua frente nesses momentos.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s