A Cabeça da Águia

Nos tempos de hoje, uma das coisas mais difíceis de se obter é foco. Concentração.

São tantas as distrações no ambiente de trabalho moderno, por exemplo, que conseguir tal feito requer muito esforço. Pedro já tinha sido chamado pelo seu chefe, o qual já o tinha alertado para sua baixa produtividade devido a sua falta de concentração. Ele lembrou-se então da fábula da Cabeça da Águia.

Naqueles tempos o Rei daquelas terras estava fazendo uma competição, com um grande prêmio para o arqueiro vencedor. O objetivo era acertar, com uma única flechada certeira, a cabeça de uma águia.

O Rei chamou então o primeiro dos três finalistas ao alto da torre de onde eles atirariam e de onde se avistava boa parte dos terrenos do Rei.

  • O que vês – Perguntou sua majestade.
  • Vejo um imenso lago no centro – Respondeu o arqueiro.
  • Somente isso? – Questionou o Rei.
  • Tem uma grande árvore no meio do lago.
  • Mais algo?
  • A águia. Vejo a águia em cima da árvore.
  • Isto é tudo? O Rei já se mostrava impaciente.
  • A Cabeça da Águia!

O atirador enfim atirou e errou.

O segundo concorrente preparou-se e o Rei se aproxima:

  • O que vês – Perguntou sua majestade.
  • Uma árvore no centro de tudo.
  • Algo mais? – Indagou o Rei.
  • A águia. Vejo a águia!
  • E nada mais? – Quiz confirmar o Rei.
  • A Cabeça da Águia!

O atirador enfim atirou e errou.

O último atirador estava preparando a mira quando o Rei o perguntou:

  • O que vês – Disse sua majestade.
  • A Cabeça da Águia! – Respondeu o atirador.
  • Algo mais? – Indagou o Rei.
  • Mais nada. Vejo somente a cabeça da Águia!

O Arqueiro atira e acerta o alvo em cheio.

Foco. Quando se foca atingem-se os alvos, pensou Pedro, e começou a trabalhar, disposto a obter tal Foco, tão necessário para o seu desempenho na firma. Mas, depois de um breve tempo, seu Messenger entrou. Era seu amigo de Brasília, perguntando se ele tinha ouvido a notícia com o anúncio das bandas que viríam para o próximo Rock in Rio. “Caramba! e já anunciaram?” ele indagou. O amigo passa o link e ele larga o que tinha começado a fazer e vai conferir a lista de bandas e os dias de show.

Depois de um bom tempo, no meio da leitura, no site com os detalhes do festival, ele se pega pensando na fábula que tinha lembrado. Para tudo, salva o link para depois e volta ao trabalho.

Já começava agora a engrenar um certo ritmo, quando do Whatsapp vem a pergunta: “Comprou para qual dia?” outro amigo, agora de Curitiba, o instigava curioso. Ele responde que ainda não tinha comprado nada, que estava trabalhando ( assim ele o deixaria em paz ), e que veria isso depois. “BLZ” e uma mãozinha com o dedão para cima foram as respostas de seu amigo.

Ele agora podia voltar àquela planilha que tinha à sua frente. Começou a examina-la mas logo chega um SMS de seu amigaço, vizinho de bairro confirmando: “ Comprei pro Sábado, tá ligado?, vamos nesse dia, falou?”, agora era sua vez de mandar o dedão para cima ,como resposta, e mais uma carinha sorrindo para o amigo ficar tranquilo que ele iria comprar os ingressos para o mesmo dia. E enquanto digitava mais alguns números pensava na fábula novamente, na cabeça da águia!

O Twitter o notifica que ele tinha um novo seguidor. “Ora, não importa”, pensa ele, já começando a achar que podia ter a concentração adequada. Logo após alguem curtiu sua foto no Instagram, mas ele entrava mais dados na planilha. Marcaram-lhe no Facebook em uma foto na pizzaria que foram no Domingo, mas ele não deu bola. Não entendia aquelas fórmulas, os números não estavam batendo… Alguem acabou de ver seu perfil no Linkedin, “Será que é uma proposta de trabalho” ele se pegou cogitando, “Meu resumê está lá, que olhem e me façam a proposta que quiserem!”, dessa vez falou em voz alta e o seu vizinho, no cúbiculo ao lado, esticou a cabeça. Pedro não percebeu e continuou tentando achar a disciplina para fazer seu trabalho.

A bolinha vermelha, com o número um, acendeu então no seu email. Ele detestava aquelas bolinhas. Não podia deixa-las lá, tinha sempre que olhar o que era, para então a bolinha desaparecer, mas não iria fazer dessa vez, pensava na cabeça da águia. Dez minutos depois outra bolinha: número dois e em seguida mais outra: número três. Era demais, ele não deixaria as bolinhas o vencerem. Era compulsivo, e estava determinado: se havia bolinhas, ele tinha que elimina-las, e foi abrir o email.

Menos mal que os dois primeiros eram notificações do seu trabalho, nada importante, comunicações em geral, já a terceira era de um amigo de Belo Horizonte, lhe passando o link do festival, que ele já tinha salvo anteriormente, e ainda enviou uma foto segurando o bilhete que tinha comprado, todo risonho, ao lado dele uma menina linda.  Pedro se pegou pensando: ”Quem era aquela gata linda?”. Não resistiu e mandou um Whatsapp para o mesmo amigo perguntando: “ Quem é essa da foto? vai com vc para o show?” Mas não esperou a resposta pois tinha que fechar aquela planilha até o fim do dia, senão seu chefe ia ficar louco da vida. Voltou a trabalhar.

Silêncio enfim. Uma boa meia hora se passou, aqueles gráficos estavam finalmente fazendo sentido, estava entendendo as fórmulas e ele ia copiando de uma folha, colando na outra…os números batiam, os gráficos iam se formando, a planilha fluía, e …”Vai comigo sim! é amiga de minha irmã”, era o amigo de BH pelo whatsapp, “Falei pra ela te add no FB” , completou. “Opa!” pensou, “Esse show vai ser demais!”, “mas deixa isso pra depois”, racionalizou Pedro, enquanto tentava achar onde ele tinha parado no meio de tantos números e gráficos.
 
Gastou outro bom tempo para achar o fio da meada, mas conseguiu, e começou a finalização da maldita planilha. Mas logo chega o aviso de solicitação de amizade pelo Facebook. ”Já seria ela?” ele se questiona todo feliz. Para tudo. Aceita o convite, entra no perfil da garota. Ela era realmente muito bonita,  a foto do perfil era maravilhosa, meio de lado com um busto grande, bem feito e um decote insinuante. Não resiste e quer ver mais fotos. Vai no album de fotos e escolhe, entre várias, uma em que ela está de camisa preta bem decotada. Abre a foto. Qual não é sua surpresa, ao ver a imagem que estava impressa, em estampa prateada, na camiseta da garota. Não acredita no que vê. Agora já sabia que estava sem saída, não ia conseguir se concentrar mais, tinha perdido o seu único ponto de foco. Desesperado, ele se levanta, e agora em voz bem alta, que acaba por chamar a atenção de todo escritorio, solta a exclamação: ” É a cabeça da águia”.

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