Coffehouse

Ele pede e paga pelo café. “Quer espaço para o leite?” –  pergunta a barista. Não precisa. Põe um pouco de açucar e senta-se no lado de fora, no terraço. Na sombra de uma árvore. Está quente. Mais abafado do que quente, mas não tanto assim. No ar condicionado ele não poderia fumar. Acende o cigarro e solta a fumaça, sem pressa, displicentemente no ar. Ao seu lado várias mesas ocupadas, alguns casais, um grupo de três amigos e outras pessoas sozinhas. Todos parecem estar olhando nos seus laptops, tablets e falando ou olhando para seus celulares. O mundo e a vida, na verdade, se passando em dois lugares; Na rua movimentada, nos carros cruzando a avenida, no passo dos pedestres, nas árvores, nos pássaros em volta delas e na natureza em geral, mas tambem passando dentro daquelas pequenas telas. Uma vida produzida e industrializada para o consumo rápido e instantâneo, provavelmente cheia de aditivos, químicos e conservantes mas que todos olhavam fixamente, como se admirando vitrines de produtos desejados, porém muito caros, que não podem paga-los, mas mesmo assim não os deixam de olha-los, pensando, ou sonhando, com a possibilidade de um dia poder te-los.

A umidade aumenta fazendo a tarde ficar pesada. O tempo tem dificuldade de passar, como se os ponteiros estivessem se arrastando ou então levassem os minutos, sólidos e consistentes, nas costas cansadas. Ele tira um novo trago e solta a nuvem de nicotina e alcatrão queimados para o alto e ele acha que vê o rosto dela no meio daquela nuvem. Sim é ela. Naquele nevoeiro de partículas de carbono ele vê seus cabelos longos e escuros escorrendo a partir de figmentos das linhas finas da parte externa da fumaça. No centro mais denso daquele vapor cinza seu rosto toma forma e vai se delineando, os olhos grandes e intensos, as sobrancelhas finas e curtas, bem delineadas, as largas maçãs do seu rosto e a boca pequena e …vermelha? Estranho, era uma visão preto e branco em uma nuvem de fumaça… ele então percebe, com a névoa se esvaindo e as formas se desfazendo, que de fato ela havia chegado. Atrasada, como sempre. “ Tudo bem”,  ele releva.

  • Desculpa, peguei um puta trânsito  – Ela chega falando, meio correndo, meio chateada. Era verdade.

“Mas finalmente chegou”, ele pensa, ansioso, enquanto aponta com a cabeça e o olhar para cadeira à sua frente. Ela tinha uma grande paciência. Além de ser linda aos olhos dele. No seu coração porém a melhor qualidade que ela tinha era a capacidade de ouvir. Ouvia sem interromper desnecessariamente. Ouvia com atenção verdadeira, com interesse. Sua cabeça fazia movimentos seguindo o raciocínio dele. Os olhos brilhavam, às vezes fechavam-se um pouco outras vezes alargarvam-se como que absorvendo mais ainda seus assuntos. Ele já compreendia todos aqueles pequenos movimentos e também os da boca dela que se entreabria, ou as vezes se contorcia em diferentes ângulos cada um querendo dizer alguma coisa. Movimentos mínimos mas com significados únicos. Quando finalmente participava, seus comentários eram precisos  e inteligentes. Ela tinha desenvolvido uma capacidade ímpar de salientar os pontos que realmente mereciam ser discutidos com mais profundidade. Identificava as questões que não tinham sido elaboradas com a devida atenção e salientava para possíveis erros de interpretação. Discorria sobre outros provavéis aspectos não considerados e discernia com aptidão pontos de vista discordantes.  Inteligência aliás era a outra grande qualidade que também o encantava. Poderiam conversar, sobre o que quisessem. Ela estava sempre informada e tinha uma opinião crítica sobre todos os assuntos. Algumas vezes demonstrava um humor cínico, quase negro, sobre alguns tópicos que o entretia e maravilhava. Muitas vezes concordavam sobre um tema, outras vezes não, mas as conversas eram sempre uma delícia, podendo passar horas dialogando sobre diversos e variados motivos. Poucas coisas se igualavam ao prazer que ele sentia quando se engajavam em uma conversação franca e direta. Ele mostrava uma ponta de sorriso no lado direito do rosto, satisfeito com essa possibilidade..

Ela senta-se. Sabía que essas conversas dele eram normalmente sem próposito, não tinham motivo específico, mas que ele sentia uma necessidade pungente dentro dele.

  • Sobre o que você quer discutir hoje?. – Ela indaga.

“E precisa ter um assunto?” ele pensou. Era só olhar ao redor. Ninguem mais fala um com o outro. Ninguem. Esses lugares deveriam ter realmente, com mais frequência, aquela placa dizendo: “Não temos wi-fi, conversem entre si”, ele pensou. Quando se está sozinho, como o cara aqui do lado, ficam olhando abtraídos nas telas de seus aparelhos que parecem feitas de areia movediça, sugando a pessoa bem devagar, levando-a cada vez mais para o fundo. Quando se está em dupla, como o casal do outro lado, os dois tambem não se falam entre si. Estão juntos, chegaram ali juntos, mas não abrem a boca entre eles. Cada um no seu mundinho particular. Ela no celular conversando com a amiga, muito animada. Dava para se ouvir as recomendações do tipo de bolsa, da cor, se combinava com o sapato e et cetera e tal. Depois era sobre a receita de uma vitamina natural, orgânica, uma gororoba, pelo que lhe pareceu, onde se misturavam tantas coisas que era difícil crer que servia para algo, e devia ser muito ruim de gosto tambem. O acompanhante não dava a menor bola para o que a mulher falava, e continuava em transe na tela do laptop. Somente os olhos e o indicador mexiam, subindo e descendo. Páginas de websites e, sabe-se lá mais o quê , ele se interessava, refletiam nos seus óculos. Piscavam as vezes em flashes, em profulsões de diversas cores.. Devia ser futebol, pois após um tempo, ligou para um amigo e começou a falar sobre uma nova contratação de seu time, uma declaração absurda que o técnico tinha dado e porque fulano de tal estava no banco de reservas. A moça, que era até atraente, por sinal, tambêm não se incomodava com o que ele falava. Tinha dado o último ingrediente daquela estranha fórmula para a amiga, desligado o telefone, e agora entrava em uma nova zona de areia movediça na tela do aparelho, parece que procurando a próxima vítima para ligar, enquanto o companheiro na sua frente se questionava, com o amigo, se o gol tinha sido impedimento ou não. No fundo, na mesa de três, a situação era mais grave. Era uma triangulação de conversas com outras pessoas, emails e mensagens de texto, Whatsapp e facebook messengers, mas nenhuma comunicação direta. Como eram três, as vezes ele até se confundia, achando que finalmente tinham dirigido a palavra um ao outro, mas era ledo engano, pois as respostas não condiziam com as perguntas, não havendo conexão de diálogos. Riam, discutiam, batiam na mesa até, mas somente com os outros, do outro lado daquelas chamadas, dentro de seus ouvidos e orelhas. Terminavam as ligações e voltavam-se para as mensagens, ou as vezes eram sugados novamente pelos tentáculos das telas que o levavam para um universo paralelo onde o ar que se respira era uma mistura de oxigênio com morfina, que os deixavam em um perfeito estado de transe, com os olhos fixos, como zumbis, sem vontade própria, distantes, porem sentindo-se conectados mutualmente naquele mesmo planeta lisérgico.

Uma hora ele ouviu a mulher do casal ao lado falar com a nova amiga que estava no telefone: “Pera aí, que te mostro”, e chegou para perto do rapaz. Por um minuto pensou até que finalmente iriam se falar, mas estava enganado. Ela encostou-se perto do rosto do acompanhante, levantou o celular e tirou um selfie. Ele tambem não disse nada. Achou tudo o mais normal. Quando notou a intenção dela, afastou seu celular do ouvido, deu um sorriso bem fake e tudo bem. Em um instante já estava de volta comentando, animadamente, que manter aquele esquema de jogo era um suícidio, que assim iam acabar rebaixados para a segunda divisão.

O cara na mesa mais próxima, o solitário, soltou-se de alguma maneira de seu estado contemplativo, pelo menos assim lhe pareceu, pois começou a teclar incessantemente. Devia ter entrado em alguma sala de chat, ou em alguma das discussões em posts nas rede sociais. Aquelas em que o post, não importa o tamanho, as vezes é até uma foto com pouco dizeres, tem trezentos ou mais comentários e que aumentam a cada minuto. As pessoas que comentam, discutem e ofendem-se uns aos outros, as vezes com questões completamente fora do contexto inicial. Começa uma bola de neve de um intelectualismo barato, cada um querendo saber mais do que o outro, ou doutrina-los com suas convicções, enquanto outros, mais anárquicos, apenas entram para provocar, são arsenários do discurso, ateando fogo em todas as controvérsias, distorcendo os pensamentos dos outros, e contribuindo com frases de desconstrução de dialógos, aumentando o caos da dialética e a multiplicação em grandes doses da polêmica inicial. Desnecessário dizer que todos os participantes desse acirrado debate, sejam lá onde eles estivessem, tambem viviam naquele mesmo universo metafisicamente alterado respirando aquele ar opiático, mescla perfeita para mante-los indolentes, sem habilidade de fazer outra coisa a não ser proliferar até o infinito, se possível, aquela discussão…”e sobre o quê era mesmo que eles discutiam?” essa era a pergunta que ele queria fazer não fosse a confusão que o trio lá do fundo estava criando.

Tinham entrado em salas de  jogos de videos games virtuais, desses que se jogam em grupo, mas para sua surpresa, pois poderiam os três fazerem parte do mesmo grupo, do mesmo time, já que estavam juntos na mesma mesa, mas não. Eles eram de times diferentes, provavelmente adversários, portanto continuavam sem se falarem uns com os outros. Cada um deles jogava no seu laptop, e ao mesmo tempo por telefone ou com um fone de ouvido, falando com os outros integrantes de seus times, localizados às vezes à milhares de quilômetros de distância. Planejavam ataques em conjunto, falavam estratégias, e gritavam palavras desconectadas como: “ Pelos flancos, agora!”, “me cobre pela esquerda”, “preciso de mais energia”, “recuar, recuar!” , enquanto os outros as vezes riam, quando deviam estar em melhor posição em tal combate, pois diziam “ avançar, avançar”, ou “ preparando ataque pelo setor oeste”, “ recarregado e pronto novamente”. Tinham todos movimentos ritmados constantes com seus mouses, um deles tinha desenvolvido um grave tique nervoso no queixo, seu maxilar mexia inconscientemente para o lado direito distorcendo completamente sua boca e rosto. O mais velho deles suava em abundância que, devido à umidade daquela tarde, deixava seus óculos enevoados. Tudo isso sem uma troca de palavras mútua. Um deles, o mais gordinho, precisou pausar o jogo, para ir ao banheiro, e mesmo assim não ouve comunicação entre eles. Provavelmente, ao invés de falar diretamente aos outros, preferiu enviar uma mensagem dentro do próprio jogo dizendo: “Cessem todos os ataques que preciso esvaziar o tanque”, ou algo desse gênero.

Ele foi seguindo com seu olhar aquele jogador à caminho dos sanitários. A umidade do ar estava realmente chegando a limites extremos, e aquela sensação abafada foi se misturando com o que ele estava sentido. Foi se formando uma letargia crescente dentro de sua mente. As janelas da coffeehouse estavam tambem embaçadas e ele já não sabia se era do ar ou se era de morfina. Com aquele embaço, as pessoas dentro da vitrine tornaram-se vultos disformes. Os movimentos das mãos levando copos de café e xícaras de chá às bocas pareciam encantamentos, leves e insinuantes. Chamavam-o para sentar-se com eles e juntar-se à aquelas mesas a tomar aquele chá hipnótico e olhar dentro de telas coloridas, caleidoscópios mágicos, transmissores de calma energia que os levaria todos à uma felicidade branda e morna. A barista agora tinha muitos frascos ao seu lado, todos de cores exóticas, que borbulhavam enquanto ela os misturava em fórmulas espumantes que as pessoas bebiam, como se em câmera lenta, e andavam em direção às suas mesas ou à caminho da porta em passos flutuantes. O gordinho agora ia sumindo vagarosamente na entrada do banheiro como se estivesse entrando em algum portal místico.

  • Você ainda não me respondeu – disse ela

Aquela voz, ele pensou que tinha ouvido. Achou que fosse ela. Estava longe, mas aos poucos foi aumentando, como se a voz dela fosse uma corda jogada no meio da areia movediça e ele fosse por ela segurando e puxando. Com esforço, pouco a pouco, saindo daquela armadilha, devagar até chegar salvo às margens.

  • Sobre o que você quer falar? – ela continuou, interessada.

E novamente aquela sensação de torpor que ele sentia foi diminuindo, o ar narcótico que ele respirava foi se purificando, como se a voz dela, retirasse da atmosfera o gás carbônico e a paralisante morfina, e preenchesse com o mais puro oxigênio, purificando gradativamente o ambiente até o ponto em que aquela dormência cerebral fosse extinta por completo e ele pôde voltar daquele universo soporífero e adormecedor, dando imediatamente de cara com o sorriso estampado em sua boca vermelha.

De volta à tona, quando ele falou, dirigindo a palavra à ela, foi a primeira vez que isso aconteceu em toda tarde naquela coffehouse. As pessoas então notaram, pelo tom e entonação das vozes, que um diálogo real estava acontecendo ali, ao vivo, em cores, na frente deles. Todos foram levantando o olhar das telas, interrompendo as conversas nos celulares e baixando os aparelhos, dirigindo os olhos para a mesa deles.

“Sabe de uma coisa?” – ele falou, medindo as palavras. – Na verdade eu poderia falar e conversar sobre vários assuntos, como fazemos normalmente, mas hoje tenho pouco à dizer, além de querer te dar algo. – E foi tirando uma pequena sacola que tinha posto no chão ao lado de sua cadeira. Colocou-a em cima da mesa. De dentro tirou uma caixinha de veludo vermelho e pôs na frente dela. Nesse momento se ouviu um suspiro generalizado entre as pessoas que estavam no terraço observando-os. Um clima de antecipação se criou. Até mesmo os que estavam do lado de dentro do Café olhavam extasiados e apreensivos com a iminente expectativa, uns passavam  as mãos ou usavam guardanapos limpando e desembaçando a vitrine para poder melhor observar a cena.

Os olhos dela sorriram, como sempre acontecia quando ela concordava com os pontos de vista dele, nas longas conversas que faziam, e antes que ele pudesse adivinhar o significado daquele olhar ela disse:

  • É claro que aceito! – Agora um sorriso completo, largo, saía de sua pequena boca e iluminava todo o seu rosto, os olhos ficaram umedecidos e ela precisou prender a respiração por um segundo para conter a emoção.

Todos do terraço também sorriam complacentes, outros se emocionaram até. O solitário, na mesa do lado, tinha fechado o laptop e estava boquiaberto. Alguns dentro do café bateram palmas. A barista derramou espuma do cappuccino que preparava. A mulher de meia idade do caixa enxugava uma lágrima que escorria do canto do olho, desejando ela mesma poder viver uma situação como aquela. A moça do casal perto deles pensou em se aproximar dos dois e tirar outra foto para seu Instagram, mas desistiu da idéia. O trio no fundo da varanda dando high fives, uns nos outros, como se finalmente fizessem parte do mesmo time e tivessem ganho a partida que vinham jogando.

  • Que bom!, disse ele – Isso merece uma comemoração.

Os dois levantam-se então, abraçam-se carinhosamente com um pequeno beijo nos lábios, dão-se as mãos e saem caminhando pelo terraço. Descem os dois degraus que o levam para o estacionamento e entram no carro dela. Ao fazerem a curva, na saída, ele olha pela janela e vê uma nuvem úmida envolvendo quase toda coffehouse. As pessoas tinham voltado aos seus lugares e se entretiam novamente com seus pequenos aparelhos. Via os mesmos olhares absortos, vidrados, e as conversações à distância. Ele baixa um pouco o vidro e pode sentir um aroma meio adocicado e analgésico ficando para trás.

Queda de Moto

Verde. O sinal abre, a moto parte. Olha o relógio: 2h34min45s da tarde, ele vai na garupa.

Primeira, segunda, de repente o freio, o cantar do pneu. Ele olha para frente e o que vê é azul. Tudo azul. Um carro azul furou o sinal e está bem na frente no meio do cruzamento. A batida é inevitável. O céu azul, ou será o carro novamente? Não, é o céu. Ele vê nuvens no canto dos olhos. Como o céu? Estou à caminho do céu?, ele se indaga. Cheiro de borracha queimada, fresca, outros pneus cantam desafinados uns com os outros, fora de tempo, gritam, na verdade. Uma caveira o olha, pálida, olhos fundos, tem asas ao lado das orelhas. Deve estar voando com ele, eles voam juntos, mas peraí! Se caveiras me acompanham não devo estar indo para o céu, ele reflete, pragmático. Olha novamente, para aquela companhia suspeita, mas agora o que vê é somente uma jaqueta jeans desbotada, a caveira, já pequena, no fim da visão, tinha uma frase embaixo que só agora, sob esse novo ângulo, ele consegue ler: “Vivo pra rodar, Rodo pra viver”.  “Vivo pra rodar”?, a cabeça dele de fato roda, rodam-lhe os pensamentos, roda o seu eixo de referência, roda o mundo ao seu redor. Não. O mundo está fixo, o seu corpo é que roda, gira ao redor do mundo. “Rodo pra viver”… Será? Putz, está sem capacete, ele se lembra. Que merda! Por que aceitou essa carona. Greve de táxi, mas ele podia ter ido de ônibus. Lotado, naquele puta calor, em pé, pendurado na barra como um condenado, com nêgo de camisa cavada, sovaco cabeludo pingando e braço levantado, outro com um bafo de leão ressacado cafungando encostado no seu pescoço, aquele cara mal encarado sentado no banco te olhando de baixo para cima, 50 minutos no mínimo, se não tiver congestionamento no túnel, à cada parada enchendo mais e ele com aquele compromisso importante às 3 da tarde. A moto do amigo era uma melhor alternativa, mas sem capacete?

Ele vê o asfalto. Faz um calor brutal, 40 graus ou mais. O asfalto parece estar derretendo, um líquido viscoso, lama negra, gosmenta, piche se desmanchando no calor descomunal. Seu olhar parece desmanchar-se junto com aquele melaço negro. Ele aproxima a visão, como se seu olhar tivesse uma teleobjetiva, ajusta as lentes, para cá e para lá até dar o foco. Talvez tivesse usado uma lente macro, já que o foco parece próximo demais e de repente tudo é negro, não há nada ao redor, o mundo escureceu. Será uma nuvem? A sombra de algum edifício? Entramos no túnel? Não faz sentido, ele pensa. Acha que vai desmaiar, que vai dar um branco, mas está tudo preto. Então ele pisca e vê uma roda cromada, com aros diagonais. Muitos aros brilhantes, todos conectados ao círculo exterior da roda. A luz reflete nos aros, e o reflexo chega à seus olhos como espadas prateadas, lumes de raio laser. A roda girando, uma roda gigante, e ele dentro da roda, em uma das cadeiras. Está só, ele é uma criança. A roda gira, e ele gira com a roda em volta do sol. A luz do sol direto nos olhos, lhe cega a visão e ele pensa em tirar seus óculos escuros do bolso da camisa mas lembra-se que os deixara na casa dela. Em cima da mesinha ao lado da cama. Porquê ele se esquecia das coisas quando estava com ela? Por isso tinha se atrasado. Ela sempre teve esse dom de deixá-lo meio fora de si, à parte do mundo, avoado, flutuando, em cima das nuvens. Ela fechava e abria os olhos bem devagar, os lábios carnudos ainda úmidos do último beijo, concentrando os músculos da pélvis, os movimentos as vezes rápidos, as vezes não, as mãos tensas, as unhas quase machucando, a pele sendo cravada, a fixação do olhar, o aumento de tensão, a expectativa, de repente, como em um último suspiro, tudo se relaxava, uma onda morna inundava os dois, soltavam-se as amarras, os músculos agora estavam leves, o barco parecia solto, à deriva, e ela tinha uma expressão suave, um quase sorriso se desenhando no canto da boca, um contentamento sutil, mas pleno. E vem aquela sensação de se estar flutuando novamente e vem outra onda batendo mais forte, e lhe trazendo à tona, arrastando o barco para a beira da praia. Tinha areia bem firme, mas a água brotava embaixo da areia quando escavada. Colocou-se a fazer castelos de areia na beira do mar. Fazia castelos góticos, com pingos de areia e água, gotas que iam se acumulando, de uma em uma, dando o formato que ele procurava. Gostava de fazer várias torres, ao redor da torre central, mais alta e imponente, onde moraria um rei justo e soberano. Ao redor do castelo um lago, circular, com uma ponte de acesso ao castelo e suas torres. Castelos de areia, castelos de carta, esculturas de gelo, todas criações temporárias com fim eminente, nascem com os momentos contados, como tudo na vida, ele refletiu. Como a própria vida em si, afinal a única certeza garantida que temos é que um dia ela acabará, basta uma maré enchente, um sopro mais forte, um clima mais quente, um carro azul, ou seria cyan?, gostava desse nome de cor, mas  era definitivamente azul, e viu aquele carro mais uma vez, de relance, como se estivesse passando em uma imagem de um filme de super 8 que tinha parado, e o projetista agora tentava rebobina-lo, colocá-lo de volta nos trilhos, e enquanto o fazia, saiam aquelas imagens distorcidas, misturadas com algumas listras escuras horizontais, mas a maioria eram verticais, passando rapidamente, como aquelas palmeiras nos filmes da Califórnia que passam alinhadas do ponto de vista do motorista em um carro conversível.

Ele via essas árvores passando, eram coqueiros provavelmente, ou talvez carnaúbas, mas palmeiras, sem dúvidas, e também carros e ônibus, e pessoas na calçada com as bocas abertas e olhares fixos. Alguns levantavam as mãos, outros queriam cobrir o que viam, mas o que viam era ele. Olhavam para ele. O que ele tinha de tão feio, ruim ou repugnante até, que não queriam olha-lo?. Tinham medo? Nunca tinha se considerado bonito, mas feio não era, tinha certeza disso, e ela lhe dizia sempre o contrario, agora à pouco mesmo, lhe acariciando os cabelos atrás da cabeça, passando as duas mãos pela sua nuca e se despedindo em um beijo, na ponta dos pés, ardente, como se fosse o último, como tinha sido o primeiro, naquele jantar elegante em que ele se sentia deslocado, de calças jeans no meio de ternos e gravatas, com a ponta de sua tatuagem exposta sob a camisa enrolada na altura dos cotovelos, e aqueles olhares de plástico que o encaravam, sorrisos forçados que se disfaziam quando mal passavam por ele, ainda dava tempo de ele  ver pelo canto dos olhos os lábios fechando-se e as bocas voltando à posição sèria, soturna até. O que fazia ele alí ? Nem precisava ter ido. Não gostava dessas socializações, não era de muita conversa mas aceitou o convite porque tinha o hábito de observar as pessoas, para as suas histórias. Sentava-se em parques e cafés públicos vendo-as passar e gostava de imaginar o que elas faziam, como viviam, quem amavam, porque sorriam, porque estavam sempre correndo, com quem falavam tanto no telefone. Criava situações em sua cabeça, dava nome à aqueles seres desconhecidos, que sem querer, com o tempo, iam se tornando conhecidos para ele, seus personagens, em novos contos, romances, crônicas. Rostos que ficavam familiares, personalidades e comportamentos que ele agora julgava conhecer. No entanto um olhar o castigava, não precisava ver para senti-lo, atravessava-lhe a carne, pontudo como uma lança. Encostada em um parapeito contra a janela, a brisa noturna soprava o cabelo dela, que resvoava displicentemente ao redor do rosto e ombros. A pele bronzeada, um moreno bem claro, realçava com o vestido lilás, ou seria fucsia?. Fúcsia, meu deus, como ele adorava os nomes dessas cores. A boca bem delineada, com curvas perfeitas, acabando no momento certo, deixava o sorriso, de dentes branquíssimos, ainda mais sinceros, o único sincero de todo aquele jantar. Aquele olhar lhe chamava e ele o seguiu. Conversações iniciais, petiscos de flerte, aperitivos-testes de empatia, tira-gostos em busca de sintonia. Que tal essa festa? Qual o seu departamento? Jornalismo? Escritor ? Escritores são seres misteriosos. É um dragão? Um cavalo? ..Não parece…Ahh um cavalo de fogo? Gostou do estilo, ela disse. Das linhas, do traço do artista. É do horoscopo chinês, explicou ele. De quarenta em quarenta anos as pessoas que nascem no ano do cavalo, viram cavalo de fogo. Então são pessoas especiais, seres ardentes, ela quiz saber. A frequência foi encontrada, a recepção era então nítida, a sintonia foi perfeita, e o beijo veio naturalmente, como já estivessem se beijado antes, mas intenso. Veio com calor, como são os primeiros beijos, e os primeiros toques, o sentir da outra pele, da carne morna encostada na sua. Veio com fogo, o corpo dele todo esquentava mas na perna direita era intenso demais. A parte interna estava como em brasa. Tocara o cano de escape da motocicleta, mas não deu tempo de gritar, uma dor profunda veio na sua coxa direita e na lateral de sua bunda. Tinha caído? Havia se arranhado, podia sentia uns puxões. Vinham-lhe umas sensações estranhas. Parecia que eram os abraços de sua mãe, uma roda gigante rodando, eram as bolas divididas na escola, as aulas de judô, castelos de areia desmoronando, as disputas de basquetebol, eram os pulos de alegria com o resultado do vestibular, a apreensão das primeiras escritas, o frio na barriga esperando as críticas, eram muitas imagens de tantos filmes assistidos passando como as arvores da California, todas as palavras dos livros lidos, tantas viagens feitas, os rostos das pessoas que conhecia, dos parentes e amigos, e daqueles que não conhecia, aqueles dos parques e dos cafés, de seus animais de infância, de seu cavalo de fogo com suas labaredas de cores fantásticas: púrpuras, lilás, magenta, cyan e do vestido fúcsia dela, aquele do primeiro beijo, e daquele sorriso de satisfação, da sensação flutuante, dos óculos escuros deixados na mesa do lado, da greve de táxis, do ônibus lotado, da carona de moto, do sinal verde e do carro azul.

Olhou o relógio que estava intacto: 2h34min47s

Era verdade: A vida realmente passa na sua frente nesses momentos.

Calangos e Abelhas

Calangos e Abelhas

– Jura que é minha?
– É sua, já falei – disse meu irmão mais velho.
– Mas e a mamãe? Ela já sabe? – indaguei.
– Deixe ela comigo e vá praticar – ele me assegurou com um piscar de olhos.

Assim peguei a espingarda e fui para o quintal. Era uma daquelas de ar comprimido, ou de chumbinhos, como também se dizia, e junto com ela meu irmão também tinha me dado uma caixa grande de munição, cheia dos tais chumbinhos.

Nosso quintal era um paraíso de lagartos que na nossa terra chamávamos de calangos. Meu irmão, que me dera a espingarda, era um exímio caçador, dono de uma pontaria extraordinária e de um coração de quem caça, ou seja, não tinha dó das presas. Matava pacas, porcos selvagens, pombas, rolinhas, marrecos, às vezes até urubús, estes, claro, não nos trazia para comê-los, mas matava-os para praticar a mira.  Tinha me ensinado o básico daquela arma e me dado umas dicas de como me tornar um bom caçador, mas eu não tinha coragem, nem coração, nem pontaria, para caçar passarinhos. Os calangos entretanto me pareciam bem mais fáceis, mais feios, e haviam dezenas, talvez centenas deles pelo quintal.

Assim naquelas férias escolares virei o terror dos calangos. Com o tempo, me aperfeiçoei e matava-os até à distância.  Eles, em cima dos muros, às vezes voavam longe quando atingidos pelos meus tiros que ficavam cada vez mais certeiros. Passava as tardes praticando em um alvo de madeira ou acertando nos calangos que passavam. Calangos de minha terra eram todos parecidos, tinham aquela cor cinza, ou bem perto disso, quiçá um verde bem musgo, um marrom escuro, ou um quase preto, todos na mesma tonalidade. As vezes alguns tinham umas manchas pelo corpo que o deixavam um pouco mais distintos, mas em sua grande maioria eram quase uniforme. Com exceção de um que vi algumas vezes, esse tinha uma mancha amarela, bem nítida, que se espalhava pelas costas, subindo até o pescoço. Esse era diferente, e esperto, se é que se pode dizer assim de um calango, mas rápido ele era com certeza, pois por duas vezes esteve na minha mira e conseguiu escapar, em uma delas meu tiro acertou seu rabo que ví voando longe para o outro lado do muro.

Eu tinha acabado de completar dez anos de idade e enquanto atirava me imaginava um caçador daqueles da África, ou em densas florestas tropicais, e os calangos eram então animais enormes, ou às vezes monstros, até em dinossauros as pobres criaturas se transformavam na minha imaginação infantil. Foram muitos, foram tantos, que já perto do fim das férias faltavam calangos para mim atirar. Estavam escasseando no quintal de minha casa.
– Pule o muro do quintal, – disse meu irmão. – daquele terreno deve ser de onde vêm todos os calangos.

Nisso talvez ele tivesse razão. O terreno era imenso, murado, mas muito grande, praticamente abandonado, pertencia ao bispado da cidade. Para a minha visão, do alto dos meus dez anos, aquele terreno cheio de árvores enormes, arbustos e muito mato no chão era realmente como uma floresta, e os calangos deviam vir todos de lá, subiam no muro alto e entravam no terreno de nossa casa. Naquela floresta eu poderia ser um caçador de verdade, minha fértil mente já começava a voar em cenários imaginários.

No dia seguinte decidi pular o muro. Foi uma tarefa muito mais difícil do que eu imaginara. O muro era bem alto, duas vezes o meu tamanho ou mais. Não tinham árvores do lado de nosso quintal para eu subir e facilitar meu trabalho. Tive que ir escalando mesmo a parede, enfiando o pé em algum espaço entre os tijolos, as mãos entre algumas brechas que ia achando, escorregava e voltava a subir, e quando já estava quase no alto, me preparando para ficar em cima do muro ví que em cima dele estava o calango com as manchas amarelas. Ele balançava a cabeça como as balançam os calangos, seu rabo, para minha surpresa, já tinha crescido novamente, estava até mais longo e ele me olhava intensamente, acho eu, quero dizer,  tinha algo naquele seu olhar de calango, talvez me provocando a subir o muro, a tentar caçá-lo, ou a cruzar para o terreno alheio. Talvez fosse a minha imaginação fértil dos meus poucos anos mas levei a sério aquele olhar e a primeira coisa que fiz quando fiquei em cima do muro foi tirar a espingarda das costas e mirar naquele calango arrogante, mas ele não estava mais lá.

Descer é mais fácil. Encontrei dois tijolos mais salientes e de um semi pulo estava do outro lado. O mato era muito, e alto, em algumas partes da altura do meu joelho. Que Bispo era aquele que deixava sua propriedade tão mal cuidada, pensei. Tinha muitas árvores todas frondosas, a maioria eram mangueiras mas também oitis, abacateiros e cajueiros.  Os calangos rastejavam por toda a parte e eu tentava acerta-los porém não conseguia. O problema, que eu não esperava, era que o mato e a grama eram muito altos e mal cuidados e ofereciam perfeitos esconderijos para os répteis. Não tinha acertado nenhum. Aquele mato alto, de onde eu ouvia uns ruídos estranhos, me fez pensar em outra coisa também: ” e se aqui tiver cobra?”. De repente aquela idéia de estar naquele terreno alheio, grande, desconhecido e mal cuidado não me pareceu tão boa assim. Decidi tentar minha sorte nos calangos dos troncos das árvores, afinal não teria sofrido para escalar aquele muro por nada, algum eu tinha que acertar. Nas mangueiras também haviam calangos, um pouco mais difíceis de achar pois devido a sua cor eles se misturavam bem com os troncos das árvores. Com algum esforço achei um, estava bem exposto, presa fácil, pensei, e preparei a mira. No momento que ia puxar o gatilho, ouvi algo rastejando, o mato mecheu perto do meu pé, pensei: ” é uma cobra e vai me picar!” e o tiro saiu completamente torto errando o alvo totalmente.

Errou é uma maneira de falar, pois, como dizia, o tiro não alvejou o que eu queria, porém acertou outro alvo em cheio: uma colméia de abelhas que estava no outro tronco e eu não tinha sequer visto. Foi um grande alvoroço naquela colméia mas eu não notava, estava preocupado com o que poderia estar rastejando perto de meus pés. A movimentação na colméia foi tanta que ela veio ao chão bem perto de mim. Pronto. Foi o bastante para elas me acharem e descobrirem que eu era a causa de tudo aquilo. Voaram em cima de mim, eu saí em disparada de volta para o muro sentindo as picadas; uma, duas, três. Olhei aquele muro enorme que agora me parecia ainda mais alto e pensei: “elas vão me comer vivo”.

Nunca subestime a força do medo. Fazemos coisas com medo que jamais faríamos em circunstâncias normais. O medo é uma entidade fantástica que está além do entendimento do homem comum. Ele é um grande estimulador ou inibidor de ações. No meu caso, com muitas graças, ele foi um estimulador, pois até hoje, se me pedires para contar, não sei dizer como subí aquele muro tão alto, que demorei tanto a subir na ida, de uma maneira tão rápida agora na volta. Só sei que assim o fiz, e em segundos, sem levar mais nenhuma picada, estava em cima do muro. E quando já me preparava para pular lá do alto, para a segurança do quintal de minha casa, não pude deixar de notar novamente a presença do tal calango de manchas amarelas. Lá estava ele me olhando e balançando a cabeça, como eles gostam de balançar, mas dessa vez o olhar era um outro, quase risonho, se é que calangos sorriem, me pareceu um olhar de satisfação sem dúvida, de quem tinha me dado uma lição.

Sem contar do incidente, nem das abelhas, muito menos do calango insolente, falei para minha mãe que caçador era meu irmão, e que eu gostava mesmo era de jogar bola.

Seu Luiz

Seu Luiz

– Aí!, cuidado com a minha chinela!

-Bom dia pra você tambem, Margarida.

-Ahh… é o senhor, seu Luiz.

-Quem mais poderia ser minha filha…

 

-Ai!, quem pisou no meu pé?

-Foi minha bengala Margarida.

-Seu Luiz!, o senhor não tem jeito né? Ontem o senhor fez a mesma coisa.

-Você tambem está muito bonita, Margarida

-Deixe disso que fico encabulada ( risinhos envergonhados )

 

-Eita! assim me machuca!

-Que foi isso? Era o seu pé?

-Era sim, Seu luiz, era a minha alpergartas, o senhor quase arrancou.

-Minha bengala precisa de óculos, Margarida.

-Deixe de ser besta, o senhor sabe bem o que está fazendo.

-Mas assim eu te faço sorrir…

 

-Oxê, olhe onde pisa, seu moço!

-Ondes vais assim toda de branco?

-Ora, seu Luiz…ora, seu Luiz….

-Parece até que vai fazer a primeira comunhão.

-Não sou tão novinha assim ( risinhos envergonhados )

-Ora Margarida, Ora Margarida…

 

-Ai, ai, ai, meu pé!!!

-Margarida, não grite assim.

-Essa bengala do senhor é terrível, seu Luiz.

-Ora deixe disso, cheire um pouquinho de rapé comigo.

-Ave maria, isso é muito ruim.

-É nada, olha só ( sorvendo o rapé de uma só vez )

-Deus me livre…Nã…

 

-Nem chegue perto com sua bengala.

-Hum?

-Estou lhe vendo, seu Luiz.

-Margarida, a primeira pessoa que passar por mim agora vou dizer “ Bom dia”.

-Porque? se já é quase na hora do almoço?

-Porque meus dias só começam quando te vejo.

 

-Ave! o senhor quase me fez tropeçar.

-Jamais irías cair, sempre te protegerei.

-Ahh,… só podia ser o senhor, né seu Luiz?

-Chegue para perto Margarida, quer um rapé?

-Vixe, eu mesmo não, isso suja as mãos, olhe as suas!

-Bobagem, a gente limpa depois, assim ó …( sorvendo o rapé de uma só vez )

-Credo…

 

-Que foi isso? quem…?

-Olá margarida, estou indo pra casa.

-Ahh seu Luiz, deixe que eu levo o senhor.  Segure no meu braço.

-Você é uma boa menina, logo se vê, e bonita como seu nome.

-Mas o senhor nem sabe o meu nome.

-Sei, é Margarida.

-O senhor chama todo mundo assim.

-Mas só você é linda como a flor que te chamo.

-Ai,  o senhor me deixa sem jeito.( risinhos envergonhados )

 

-Já chegou seu Luiz?, como foi na rua?

-Vou tomar um banho, de que é a sopa Margarida?

-Hoje é de legumes..está uma delícia. Gostou?

-Sim, Margarida, como tudo o que você faz.

-Esse banho foi bom, hein seu Luiz? Está todo cheiroso.

-Minha filha, eu sou assim, é só eu suar pra começar a sair esse aroma.

-( risinhos envergonhados ),  o senhor não perde uma chance…

 

-Cadê meu rapé margarida?

-Aí do lado de sua mesinha na cama

-Ahh achei. Quer um pouquinho?

-Não seu Luiz. o Senhor já está até deitado. Durma bem.

-Hum, hum….

-Durma com os anjos.

-Os anjos estão todos de branco.

-O que disse, seu Luiz?

-Será que é minha primeira comunhão?.

-Seu Luiz?

Santa Rita

Santa Rita

Não sei dizer como se chegava até lá. Naqueles tempos não era tão longe da pequena cidade, mas talvez possa estar enganado pois minha percepção de tempo e distância eram diferentes. Quando se é jovem as horas em geral são mais longas, pelo menos eram para os jovens de minha época. Talvez hoje em dia isto seja distinto pois os meninos fazem tantas coisas ao mesmo tempo, não sei como conseguem, talvez as horas para eles sejam rápidas, mas essa percepção eles só terão quando forem mais velhos, como eu, e puderem olhar para trás e analisarem as diferenças, compararem os tempos, como aqui faço eu. Sei que para mim hoje em dia tudo parece tão rápido, vêm e desapareçem, mas antes os minutos escorriam lentamente na peneira do tempo. Já a distância sempre foi, penso eu, algo relativo, mas de alguma forma também atada ao tempo, quero dizer que quando se está ocupado e entretido a distância parece curta mas quando a coisa está enfadonha parece que nunca se chega.

Na Santa Rita não se demorava muito a chegar então. A estrada era de terra. O carro fazia uma nuvem de poeira quando eu olhava para trás. Dava para ver o canavial de longe que ficava bem alto em tempo de colheita. Depois de uma curva o portão de entrada, de madeira já velha, bem simples, sem nome, sem nada, onde tinha a grade no chão para as vacas não passarem.  O cheiro de melaço de cana no ar, ou deviam estar fazendo rapadura, ou alfenim, aquela liga mais fina, algo entre o melaço e a batida, mais suave, que derretia na boca. Mal a Rural parava eu disparava em direção à pequena moenda. Seu Antônio lá cuidando do fogo, Zézinho, seu filho menor, moendo mais cana e Dona Mazé mechendo no tacho:

– Menino, não põe o dedo que tá quente!

Mas eu já tinha levado um punhado de alfenim e chupando aquela doçura voltava correndo para casa.

Era antiga, toda branca, de telha, sem forro no teto. Por fora uma varanda que a arrodiava quase toda, dentro uma sala grande na frente com um sofá meio empoeirado acercado de umas cadeiras de balanço, uma cristaleira no lado com bebidas e taças, e uma cômoda com muitas gavetas contra a parede. Depois vinha a copa, com uma mesa bem grande e rústica de madeira maçica e cadeiras pesadas. Sempre tinha uma gamela farta no centro da mesa com algumas frutas que iam caindo dos pés ou sendo tiradas já maduras: mangas, cajús, laranjas, goiabas e laranja-limas. Havia uma passagem que levava para o corredor onde ficavam o banheiro e os quartos. No fundo da copa, descendo uns dois degraus, ficava a cozinha. As bocas de fogo e o forno de lenha, tudo se esquentava à base de carvão. Tinha tambem um espaço no chão, um buraco  raso, onde se fazia um fogo mais alto e se pendurava o calderão em cima.

– Não chega perto que tu te queima, seu buliçoso!

De piso de barro batido, a cozinha era aberta, sem paredes nos lados ou nos fundos, assim a fumaça saía e não entrava na casa, na verdade tinha parede sim, mas era bem baixa com menos de um metro de altura que servia de banco para as pessoas sentarem se quisessem. Depois da cozinha, nos fundos da casa, era tudo de terra. O varal esticado com as roupas e toalhas coarando ao vento. Muitas galinhas, seus pintos, uns dois galos, patos, e outros animais, andando e ciscando dentro de um grande cercado.

– Deixa os capotes em paz! Eita, menino danado!

A casa dos moradores ficava no final, de taipa e barro, coberta de palha de carnaúba, perto de umas mangueiras frondosas que muita sombra faziam, onde tinham alguns tamboretes, que seu Antônio sentava para descascar as laranjas e onde o cachorro velho vivia dormindo.

Chegávamos no meio da tarde,  ainda dava tempo de descer até o rio. O Surubím não ficava muito longe, esse eu sei, pois dava para ir a pé. Se fazia calor eu sempre ia junto. Chegava lá e mergulhava com tudo nas sua águas escuras e limpas. Se tinha Surubím de verdade alí nunca os vi. Quase não íamos para pescar mas para tomar banho e buscar água fresca. Dona Mazé mandava as duas filhas e um afilhado comigo e eles carregavam uma lata grande na cabeça cada um. Era subida na volta, e tinha pedras, elas balançavam mas nunca caíam, nem nada derramava. As latas enchiam os potes que ficavam na cozinha. Eram três, de barro, grandes, que faziam um sistema de decantação e filtração. A água ficava sentada lá no primeiro deles e ia decantando, depois de um tempo se mudava para o outro pote, e o processo se repetia até o terceiro, desse último a gente bebia, enfiava-se umas colheres de cuia bem grandes e enchiam-se os copos para a mesa do jantar, que já estava quase pronta.

– Não pega na comida! vá lavar as mãos primeiro!

Seu Antônio matava uma galinha ou um pato,  faziam ao molho pardo.  Comíamos tudo, pouca coisa sobrava. Arroz, feijão, farofa, alguns legumes da pequena horta ao lado da casa, e rapadura ralada acompanhavam aquele prato ensopado que com quanto mais molho melhor de se comer. Daí passávamos para a melhor parte: as noites na varanda. O piso era de laje, as lamparinas iam se acendendo, o cheiro de querosene no ar misturava-se com os dos licôres dos adultos, com o de Jenipapo especialmente. Se apurassem-mos os ouvidos talvez desse para escutar as últimas badaladas do sino da capelinha distante da vila mais próxima. As vacas de longe procuravam o seu lugar e os grilos começavam a cantoria, onde as vezes um sapo ou uma coruja tambem participavam.  Armavam-se as redes, puxavam-se as cadeiras, pendurávam-se os lampiões, enquanto a noite lá fora caía escura. As conversas, as lorotas, aquele tempo todo para se gastar, a preocupação inexistente, as risadas bem altas, os vagalumes piscando no escuro, a lua pequena nos espiando por uma fresta no meio das telhas como se estivesse esticando as orelhas para ouvir nossas estórias, o sono que vinha chegando, os lampejos da lamparina e sua luz âmbar e eu pedindo para as estrelas que dessas noites e daqueles tempos eu nunca deixasse de lembrar.