Nos dez pés de martelo Texano

Por todos os cantos que eu já andei

Desde o dia de meu nascimento

Sempre fiquei esperto e atento

Utilizando tudo o que estudei

Quando cheguei aqui me empolguei

Já faz tempo nem lembro qual ano

Até me sinto quase um veterano

Nessa terra de verso e poesia

Me encho de idéias, de fantasia

Nos dez pés de martelo Texano

 

O chão é fértil apesar de quente

E o povo é alegre e apaixonado

Pelas margens do rio Colorado

Logo se vê que aqui é diferente

No meio de todo o tipo de gente

Chinês, europeu e até indiano

Tem democrata e tem republicano

Na mais completa das diversidade

Usufruindo de sua liberdade

Nos dez pés de martelo Texano

 

A música então é uma bonança

De uma fartura maravilhosa

Na noite não tem uma alma sebosa

Que não caia no meio da dança

Se espalhando pela vizinhança

Os sons vão do santo ao profano

Agradando a gregos e a troianos

Todos os ritmos aqui se mistura

Sem preconceito e sem frescura

Nos dez pés de martelo Texano

Som Nordestino

Em um lugar mundano

Vilarejo bem pequeno

Com um ar campesino

De Marias e de Miguéis.

Tocava meu som insano

Com calor, mel e veneno

Assim meio clandestino

Com o quê dos candomblés.

Mas foi chegando um fulano

Acho até que era Chileno

Com um sotaque cretino

Querendo que eu toque Jazz.

.

Pero que pasa hermano! Que isso não é bueno,

Só toco o som Nordestino nos nossos arrasta pés.

.

Era um simples ser humano

Mas eu me sentia pleno

E tinha o mesmo destino

Dos grandes menestréis.

No meu cotidiano

Entre meu povo moreno

A vida de um peregrino

Tocando por uns merréis.

Mas chegou um Italiano

Fazendo logo um aceno

Com um olhar traquino

Foi pedindo um Bluegrass.

.

Você pode ser Romano, mas isso aí é obsceno

Só toco o som Nordestino nos nossos arrasta pés.

.

Ninguem era puritano

Mas o clima era ameno

Até que era bem fino

Tocar naqueles bordéis.

Voltava todo o ano

Debaixo de sol e sereno

E do público feminino

Ganhava mais do que cafunés.

Mas me entra um Muçulmano

Descendente de Romeno

Querendo Blues genuino

Com solos de oboés.

.

Que é isso, carcamano Isso dá dor no duodeno

Só toco o som Nordestino nos nossos arrasta pés.

O que se faz se paga

Diz o ditado popular

Todos entram nesta dança

Não sei se nessa ou se em outra

Se por sorte ou por praga

Talvez por azar ou vingança

O que se faz, sempre se paga.

.

Não se sabe do futuro

Nem dos caprichos do destino

Mesmo tecido em belo pano

Seja lá o que ele traga

Errar é um ato humano

A mão apedreja e também afaga.

.

Olhe no fundo do poço

Veja o que a imagem mostra

A calmaria nunca dura

O barco sucumbe e naufraga

No mar da vaidade e da usura

A onda que afoga e esmaga.

.

Só nunca me questione

O que fiz pelos beijos teus

Se errei não me abandone e

Fica comigo pelo amor de Deus.

Sina

Na noite que cai cedo

Serpentes andam no céu

O brilho que faz medo

As sombras do fogaréu

Na praia que não tem fim

O mais ledo dos enganos

A lua é testemunha

Os olhos dos oceanos.

.

É a areia que se estende

Na vazante da maré

O silêncio da mente

Na ilusão da fé

Botando a boca no mundo

O vento que alucina

A dor que vem lá do fundo

O grito que contamina.

.

Uma mão que vem e afaga

A lembrança de um semblante

A certeza de um ser errante.

.

Pra doença se busca a cura

Ao poeta só resta sonhar

Quando a sua sina é rimar.

A Estrada do Cantador

Na estrada

de um cantador

Há muito sofrer

frutos de um viver

Na busca do amor

Seja ele como for

na rima atrevida

no tiro e na queda

no leite que azeda

em cada ferida

A eterna espera

a pura resignação

De sem nenhum pudor

Estar sempre à dispor

Da inspiração.

.

Um cantador

Na sua estrada

tem plena liberdade

de ter humildade

em cada alvorada

A longa caminhada

de auto conhecimento

Sem hora pra acabar

Aonde o destino levar

Vivendo cada momento

Até não ser mais fardo

Carrega então sua arte

E se enche de fantasia

Come prosa e poesia

E com todos comparte.

Metralhando verso até dizer chega

Tem dias que é um desespero

Eu nem sei de onde vem

Me deixando num destempero

Escrevendo como ninguém

Vem idéia por todo o lado

Frase, palavra e rima

Chegando tudo misturado

Sem ter a menor disciplina

Pego então o meu caderno

Vou pro bar do seu Ortêga

Na mesa tomo uma cerveja

Metralhando verso até dizer chega.

.

Muita pouca gente entende

Essa vida louca de poeta

Não me peça explicação

Que essa não é minha meta

Acho que abre um canal

Uma ponte pra outro mundo

As vezes vem algo banal

Noutras é um papo profundo

Tem dias que quero bloquear

E sair com minha nêga

Mas pareço um alucinado

Metralhando verso até dizer chega.

.

Hoje veio poesia

Amanhã pode ser prosa

Nunca dá pra adivinhar

A inspiração é melindrosa

Com o tempo a gente aprende

E sabe corresponder

É um caminho de duas mãos

Tem que dar pra se receber

Agora até já presinto

Já sei quando se aproxega

A caneta move em minha mão

Metralhando verso até dizer chega

Homem da cobra

Remédio pra dor de cabeça,

Cura pra mal de mulher

Não importa o que aconteça,

Ele tem o que você quer.

Pra carrapato, pra bicho de pé.

Pr’as lombrigas das crianças

Alguns dizem que ele é pajé.

Pois enche o povo de esperança.

Só sei que de tudo ele vende

Ele é pau pra toda obra

Grita tanto que ofende e

Fala mais que o homem da cobra.

.

Vá na feira ou no mercado

Que ele tem algo pra você

Recupera o teu namorado

E faz até o amor crescer.

Tem fama de milagreiro

Veio de longe, é cigano

Dizem até que é macumbeiro

Mas ele diz que é engano.

É esperto como um duende

Tudo vende e nada sobra

Grita tanto que ofende e

Fala mais que o homem da cobra.

.

No comprimido, na garapa

Ou misturado no dendê

O gosto é como um tapa

Só provando pra se ver.

Tem também uns pó estranho

Meio escuro como um rapé

Que cura inté o mal de fanho

Cheire aí, me diga como é.

A toda gente ele atende

Dá um jeito e se desdobra

Grita tanto que ofende e

Fala mais que o homem da cobra.

Pastorando

Por favô eu quero um lampejo

De raio e trovão com susto grande

Ou um gole bem forte de café

Pra que a cuca não desande.

Pode sê tombém uma garapa,

Ou quem sabe inté um belo tapa

Bem nas ôiça, que é pra atiçá!

Só pra qu’eu fique acordado,

Num cantim, apaixonado,

Pastorando o teu sonhar.

.

Lua cheia alumia todo o quarto

Eu te olhando assim mei’ sem jeito

És linda demais pr’eu te merecer

Não sei o que fiz, mas foi bem feito.

De repente tu se vira assim de frente

E teu sorriso me deixa saliente

Mas essa noite é só pr’eu te admirar,

Fico calmo, quietim, comportado

Num cantim, apaixonado,

Pastorando o teu sonhar.

Music: Frank Almendra. Lyrics:João Rolim /Frank Almendra 

Terapia

Tenho andado um tanto que abestado

Com uns frio na barriga vez em quando

Teve um dia que eu me peguei andando

Quando olhei vi eu mesmo do meu lado.

Sinto uns cheiro, estranho, jardinado

E uns gosto de doce todo dia

Em tudo que leio, vejo poesia

E meu peito sacode qual tambor.

Se o que sinto não é amor

É pura taquicardia

Bate, pula, faz calor

Qual será a terapia.

.

De repente tudo gira e fico tonto

Ou parece que estou em um tobogã

Fico alegre e pulo que nem uma rã

Escrevo prosa, verso e faço conto.

Falo muito mas não chego ao ponto

Minha cabeça é uma montanha russa

Tento tudo, me belisco e lavo as fuça

Mas é difícil sair de onde estô

Se o que sinto não é amor

É gastrite ou arritmia

Vira, mexe, vem com dor

Qual será a terapia.

Music: Frank Almendra. Lyrics:João Rolim /Frank Almendra

Dengo

Você falou de um amor sem fim

Meu dengo,

mas que acabou assim

Eu lembro.

Já não quero mais mexer com a paixão

Pode até ser bom, mas parte o coração

Que sofre e chora, pena e implora

Mas você se vai e outras virão.

.

Você se foi e eu nem vi,

Nem lembro.

Tudo bem, eu aprendi,

Meu dengo.

Nada era em vão com tanto querer

Era tanta paixão que dava gosto de ver

Mas tudo acaba um dia

Depois de tanta alegria

Só lembranças guardo de você.

.

Como nas torturas de dante

se nutre da carne dos amantes

Perdi, eu sei, não tenho ilusão

sem amor, não há coração.