Coffehouse

Ele pede e paga pelo café. “Quer espaço para o leite?” –  pergunta a barista. Não precisa. Põe um pouco de açucar e senta-se no lado de fora, no terraço. Na sombra de uma árvore. Está quente. Mais abafado do que quente, mas não tanto assim. No ar condicionado ele não poderia fumar. Acende o cigarro e solta a fumaça, sem pressa, displicentemente no ar. Ao seu lado várias mesas ocupadas, alguns casais, um grupo de três amigos e outras pessoas sozinhas. Todos parecem estar olhando nos seus laptops, tablets e falando ou olhando para seus celulares. O mundo e a vida, na verdade, se passando em dois lugares; Na rua movimentada, nos carros cruzando a avenida, no passo dos pedestres, nas árvores, nos pássaros em volta delas e na natureza em geral, mas tambem passando dentro daquelas pequenas telas. Uma vida produzida e industrializada para o consumo rápido e instantâneo, provavelmente cheia de aditivos, químicos e conservantes mas que todos olhavam fixamente, como se admirando vitrines de produtos desejados, porém muito caros, que não podem paga-los, mas mesmo assim não os deixam de olha-los, pensando, ou sonhando, com a possibilidade de um dia poder te-los.

A umidade aumenta fazendo a tarde ficar pesada. O tempo tem dificuldade de passar, como se os ponteiros estivessem se arrastando ou então levassem os minutos, sólidos e consistentes, nas costas cansadas. Ele tira um novo trago e solta a nuvem de nicotina e alcatrão queimados para o alto e ele acha que vê o rosto dela no meio daquela nuvem. Sim é ela. Naquele nevoeiro de partículas de carbono ele vê seus cabelos longos e escuros escorrendo a partir de figmentos das linhas finas da parte externa da fumaça. No centro mais denso daquele vapor cinza seu rosto toma forma e vai se delineando, os olhos grandes e intensos, as sobrancelhas finas e curtas, bem delineadas, as largas maçãs do seu rosto e a boca pequena e …vermelha? Estranho, era uma visão preto e branco em uma nuvem de fumaça… ele então percebe, com a névoa se esvaindo e as formas se desfazendo, que de fato ela havia chegado. Atrasada, como sempre. “ Tudo bem”,  ele releva.

  • Desculpa, peguei um puta trânsito  – Ela chega falando, meio correndo, meio chateada. Era verdade.

“Mas finalmente chegou”, ele pensa, ansioso, enquanto aponta com a cabeça e o olhar para cadeira à sua frente. Ela tinha uma grande paciência. Além de ser linda aos olhos dele. No seu coração porém a melhor qualidade que ela tinha era a capacidade de ouvir. Ouvia sem interromper desnecessariamente. Ouvia com atenção verdadeira, com interesse. Sua cabeça fazia movimentos seguindo o raciocínio dele. Os olhos brilhavam, às vezes fechavam-se um pouco outras vezes alargarvam-se como que absorvendo mais ainda seus assuntos. Ele já compreendia todos aqueles pequenos movimentos e também os da boca dela que se entreabria, ou as vezes se contorcia em diferentes ângulos cada um querendo dizer alguma coisa. Movimentos mínimos mas com significados únicos. Quando finalmente participava, seus comentários eram precisos  e inteligentes. Ela tinha desenvolvido uma capacidade ímpar de salientar os pontos que realmente mereciam ser discutidos com mais profundidade. Identificava as questões que não tinham sido elaboradas com a devida atenção e salientava para possíveis erros de interpretação. Discorria sobre outros provavéis aspectos não considerados e discernia com aptidão pontos de vista discordantes.  Inteligência aliás era a outra grande qualidade que também o encantava. Poderiam conversar, sobre o que quisessem. Ela estava sempre informada e tinha uma opinião crítica sobre todos os assuntos. Algumas vezes demonstrava um humor cínico, quase negro, sobre alguns tópicos que o entretia e maravilhava. Muitas vezes concordavam sobre um tema, outras vezes não, mas as conversas eram sempre uma delícia, podendo passar horas dialogando sobre diversos e variados motivos. Poucas coisas se igualavam ao prazer que ele sentia quando se engajavam em uma conversação franca e direta. Ele mostrava uma ponta de sorriso no lado direito do rosto, satisfeito com essa possibilidade..

Ela senta-se. Sabía que essas conversas dele eram normalmente sem próposito, não tinham motivo específico, mas que ele sentia uma necessidade pungente dentro dele.

  • Sobre o que você quer discutir hoje?. – Ela indaga.

“E precisa ter um assunto?” ele pensou. Era só olhar ao redor. Ninguem mais fala um com o outro. Ninguem. Esses lugares deveriam ter realmente, com mais frequência, aquela placa dizendo: “Não temos wi-fi, conversem entre si”, ele pensou. Quando se está sozinho, como o cara aqui do lado, ficam olhando abtraídos nas telas de seus aparelhos que parecem feitas de areia movediça, sugando a pessoa bem devagar, levando-a cada vez mais para o fundo. Quando se está em dupla, como o casal do outro lado, os dois tambem não se falam entre si. Estão juntos, chegaram ali juntos, mas não abrem a boca entre eles. Cada um no seu mundinho particular. Ela no celular conversando com a amiga, muito animada. Dava para se ouvir as recomendações do tipo de bolsa, da cor, se combinava com o sapato e et cetera e tal. Depois era sobre a receita de uma vitamina natural, orgânica, uma gororoba, pelo que lhe pareceu, onde se misturavam tantas coisas que era difícil crer que servia para algo, e devia ser muito ruim de gosto tambem. O acompanhante não dava a menor bola para o que a mulher falava, e continuava em transe na tela do laptop. Somente os olhos e o indicador mexiam, subindo e descendo. Páginas de websites e, sabe-se lá mais o quê , ele se interessava, refletiam nos seus óculos. Piscavam as vezes em flashes, em profulsões de diversas cores.. Devia ser futebol, pois após um tempo, ligou para um amigo e começou a falar sobre uma nova contratação de seu time, uma declaração absurda que o técnico tinha dado e porque fulano de tal estava no banco de reservas. A moça, que era até atraente, por sinal, tambêm não se incomodava com o que ele falava. Tinha dado o último ingrediente daquela estranha fórmula para a amiga, desligado o telefone, e agora entrava em uma nova zona de areia movediça na tela do aparelho, parece que procurando a próxima vítima para ligar, enquanto o companheiro na sua frente se questionava, com o amigo, se o gol tinha sido impedimento ou não. No fundo, na mesa de três, a situação era mais grave. Era uma triangulação de conversas com outras pessoas, emails e mensagens de texto, Whatsapp e facebook messengers, mas nenhuma comunicação direta. Como eram três, as vezes ele até se confundia, achando que finalmente tinham dirigido a palavra um ao outro, mas era ledo engano, pois as respostas não condiziam com as perguntas, não havendo conexão de diálogos. Riam, discutiam, batiam na mesa até, mas somente com os outros, do outro lado daquelas chamadas, dentro de seus ouvidos e orelhas. Terminavam as ligações e voltavam-se para as mensagens, ou as vezes eram sugados novamente pelos tentáculos das telas que o levavam para um universo paralelo onde o ar que se respira era uma mistura de oxigênio com morfina, que os deixavam em um perfeito estado de transe, com os olhos fixos, como zumbis, sem vontade própria, distantes, porem sentindo-se conectados mutualmente naquele mesmo planeta lisérgico.

Uma hora ele ouviu a mulher do casal ao lado falar com a nova amiga que estava no telefone: “Pera aí, que te mostro”, e chegou para perto do rapaz. Por um minuto pensou até que finalmente iriam se falar, mas estava enganado. Ela encostou-se perto do rosto do acompanhante, levantou o celular e tirou um selfie. Ele tambem não disse nada. Achou tudo o mais normal. Quando notou a intenção dela, afastou seu celular do ouvido, deu um sorriso bem fake e tudo bem. Em um instante já estava de volta comentando, animadamente, que manter aquele esquema de jogo era um suícidio, que assim iam acabar rebaixados para a segunda divisão.

O cara na mesa mais próxima, o solitário, soltou-se de alguma maneira de seu estado contemplativo, pelo menos assim lhe pareceu, pois começou a teclar incessantemente. Devia ter entrado em alguma sala de chat, ou em alguma das discussões em posts nas rede sociais. Aquelas em que o post, não importa o tamanho, as vezes é até uma foto com pouco dizeres, tem trezentos ou mais comentários e que aumentam a cada minuto. As pessoas que comentam, discutem e ofendem-se uns aos outros, as vezes com questões completamente fora do contexto inicial. Começa uma bola de neve de um intelectualismo barato, cada um querendo saber mais do que o outro, ou doutrina-los com suas convicções, enquanto outros, mais anárquicos, apenas entram para provocar, são arsenários do discurso, ateando fogo em todas as controvérsias, distorcendo os pensamentos dos outros, e contribuindo com frases de desconstrução de dialógos, aumentando o caos da dialética e a multiplicação em grandes doses da polêmica inicial. Desnecessário dizer que todos os participantes desse acirrado debate, sejam lá onde eles estivessem, tambem viviam naquele mesmo universo metafisicamente alterado respirando aquele ar opiático, mescla perfeita para mante-los indolentes, sem habilidade de fazer outra coisa a não ser proliferar até o infinito, se possível, aquela discussão…”e sobre o quê era mesmo que eles discutiam?” essa era a pergunta que ele queria fazer não fosse a confusão que o trio lá do fundo estava criando.

Tinham entrado em salas de  jogos de videos games virtuais, desses que se jogam em grupo, mas para sua surpresa, pois poderiam os três fazerem parte do mesmo grupo, do mesmo time, já que estavam juntos na mesma mesa, mas não. Eles eram de times diferentes, provavelmente adversários, portanto continuavam sem se falarem uns com os outros. Cada um deles jogava no seu laptop, e ao mesmo tempo por telefone ou com um fone de ouvido, falando com os outros integrantes de seus times, localizados às vezes à milhares de quilômetros de distância. Planejavam ataques em conjunto, falavam estratégias, e gritavam palavras desconectadas como: “ Pelos flancos, agora!”, “me cobre pela esquerda”, “preciso de mais energia”, “recuar, recuar!” , enquanto os outros as vezes riam, quando deviam estar em melhor posição em tal combate, pois diziam “ avançar, avançar”, ou “ preparando ataque pelo setor oeste”, “ recarregado e pronto novamente”. Tinham todos movimentos ritmados constantes com seus mouses, um deles tinha desenvolvido um grave tique nervoso no queixo, seu maxilar mexia inconscientemente para o lado direito distorcendo completamente sua boca e rosto. O mais velho deles suava em abundância que, devido à umidade daquela tarde, deixava seus óculos enevoados. Tudo isso sem uma troca de palavras mútua. Um deles, o mais gordinho, precisou pausar o jogo, para ir ao banheiro, e mesmo assim não ouve comunicação entre eles. Provavelmente, ao invés de falar diretamente aos outros, preferiu enviar uma mensagem dentro do próprio jogo dizendo: “Cessem todos os ataques que preciso esvaziar o tanque”, ou algo desse gênero.

Ele foi seguindo com seu olhar aquele jogador à caminho dos sanitários. A umidade do ar estava realmente chegando a limites extremos, e aquela sensação abafada foi se misturando com o que ele estava sentido. Foi se formando uma letargia crescente dentro de sua mente. As janelas da coffeehouse estavam tambem embaçadas e ele já não sabia se era do ar ou se era de morfina. Com aquele embaço, as pessoas dentro da vitrine tornaram-se vultos disformes. Os movimentos das mãos levando copos de café e xícaras de chá às bocas pareciam encantamentos, leves e insinuantes. Chamavam-o para sentar-se com eles e juntar-se à aquelas mesas a tomar aquele chá hipnótico e olhar dentro de telas coloridas, caleidoscópios mágicos, transmissores de calma energia que os levaria todos à uma felicidade branda e morna. A barista agora tinha muitos frascos ao seu lado, todos de cores exóticas, que borbulhavam enquanto ela os misturava em fórmulas espumantes que as pessoas bebiam, como se em câmera lenta, e andavam em direção às suas mesas ou à caminho da porta em passos flutuantes. O gordinho agora ia sumindo vagarosamente na entrada do banheiro como se estivesse entrando em algum portal místico.

  • Você ainda não me respondeu – disse ela

Aquela voz, ele pensou que tinha ouvido. Achou que fosse ela. Estava longe, mas aos poucos foi aumentando, como se a voz dela fosse uma corda jogada no meio da areia movediça e ele fosse por ela segurando e puxando. Com esforço, pouco a pouco, saindo daquela armadilha, devagar até chegar salvo às margens.

  • Sobre o que você quer falar? – ela continuou, interessada.

E novamente aquela sensação de torpor que ele sentia foi diminuindo, o ar narcótico que ele respirava foi se purificando, como se a voz dela, retirasse da atmosfera o gás carbônico e a paralisante morfina, e preenchesse com o mais puro oxigênio, purificando gradativamente o ambiente até o ponto em que aquela dormência cerebral fosse extinta por completo e ele pôde voltar daquele universo soporífero e adormecedor, dando imediatamente de cara com o sorriso estampado em sua boca vermelha.

De volta à tona, quando ele falou, dirigindo a palavra à ela, foi a primeira vez que isso aconteceu em toda tarde naquela coffehouse. As pessoas então notaram, pelo tom e entonação das vozes, que um diálogo real estava acontecendo ali, ao vivo, em cores, na frente deles. Todos foram levantando o olhar das telas, interrompendo as conversas nos celulares e baixando os aparelhos, dirigindo os olhos para a mesa deles.

“Sabe de uma coisa?” – ele falou, medindo as palavras. – Na verdade eu poderia falar e conversar sobre vários assuntos, como fazemos normalmente, mas hoje tenho pouco à dizer, além de querer te dar algo. – E foi tirando uma pequena sacola que tinha posto no chão ao lado de sua cadeira. Colocou-a em cima da mesa. De dentro tirou uma caixinha de veludo vermelho e pôs na frente dela. Nesse momento se ouviu um suspiro generalizado entre as pessoas que estavam no terraço observando-os. Um clima de antecipação se criou. Até mesmo os que estavam do lado de dentro do Café olhavam extasiados e apreensivos com a iminente expectativa, uns passavam  as mãos ou usavam guardanapos limpando e desembaçando a vitrine para poder melhor observar a cena.

Os olhos dela sorriram, como sempre acontecia quando ela concordava com os pontos de vista dele, nas longas conversas que faziam, e antes que ele pudesse adivinhar o significado daquele olhar ela disse:

  • É claro que aceito! – Agora um sorriso completo, largo, saía de sua pequena boca e iluminava todo o seu rosto, os olhos ficaram umedecidos e ela precisou prender a respiração por um segundo para conter a emoção.

Todos do terraço também sorriam complacentes, outros se emocionaram até. O solitário, na mesa do lado, tinha fechado o laptop e estava boquiaberto. Alguns dentro do café bateram palmas. A barista derramou espuma do cappuccino que preparava. A mulher de meia idade do caixa enxugava uma lágrima que escorria do canto do olho, desejando ela mesma poder viver uma situação como aquela. A moça do casal perto deles pensou em se aproximar dos dois e tirar outra foto para seu Instagram, mas desistiu da idéia. O trio no fundo da varanda dando high fives, uns nos outros, como se finalmente fizessem parte do mesmo time e tivessem ganho a partida que vinham jogando.

  • Que bom!, disse ele – Isso merece uma comemoração.

Os dois levantam-se então, abraçam-se carinhosamente com um pequeno beijo nos lábios, dão-se as mãos e saem caminhando pelo terraço. Descem os dois degraus que o levam para o estacionamento e entram no carro dela. Ao fazerem a curva, na saída, ele olha pela janela e vê uma nuvem úmida envolvendo quase toda coffehouse. As pessoas tinham voltado aos seus lugares e se entretiam novamente com seus pequenos aparelhos. Via os mesmos olhares absortos, vidrados, e as conversações à distância. Ele baixa um pouco o vidro e pode sentir um aroma meio adocicado e analgésico ficando para trás.